Crédito da imagem: Ricardo Stuckert

 

Por Cristiane Ganaka e Marcelo Depieri

A ascensão da China como uma potência representa um dos eventos mais significativos da economia global nos últimos anos. A China não apenas se tornou a principal exportadora mundial, mas também demonstrou uma notável capacidade de manter seu crescimento econômico em um ritmo acelerado. Desde 2011, o governo chinês busca adaptar o seu modelo de crescimento, com a expansão do mercado interno e uma distribuição regional mais equitativa dos investimentos, visando assegurar a sustentabilidade do vigor econômico a longo prazo (IPEA, 2011).

Tal êxito, até o momento, chama atenção e nos faz questionar qual o papel que a China pode ter para o desenvolvimento global. No Brasil, particularmente, existe uma expectativa sobre o que a China pode fazer para o projeto de reindustrialização no contexto do terceiro governo Lula. Nesse texto buscamos compreender o modelo de desenvolvimento chinês e, mais especificamente, analisamos o histórico das relações comerciais Brasil – China e os limites e as potencialidades dessa relação.

A China, em sua política interna, coloca em prática um projeto de desenvolvimento socialista. O desenvolvimento chinês deve ser analisado de maneira livre de amarras ideológicas e sem buscar encaixá-lo em conceitos estáticos sobre modos de produção. A China põe em marcha o socialismo, com suas peculiaridades, complexidades e contradições.

O principal indutor da economia chinesa é o Estado, uma vez que é ele quem controla o crédito da economia. Dessa forma, a economia chinesa escapa dos ditames do setor privado como impulso para seu desempenho. “Ora”, poderiam questionar alguns, “mas isso não seria um capitalismo de Estado?”. Poderia ser, caso a direção dessa e de outras políticas não fossem decididas dentro das instâncias do Partido Comunista Chinês (PCCh), e caso não existissem outras características que fazem o desenvolvimento do país asiático não ter como principal objetivo o lucro.

Os setores de infraestrutura, como siderurgia, transporte, energia e comunicações, estão nas mãos do Estado, e a propriedade, em sua maioria, não é privada. Mesmo a partir da era Xiaoping (1978-1992), em que teve início uma significativa abertura para a entrada do capital estrangeiro em diversos setores, o Estado nunca deixou de controlar o que se considera como essencial, como as finanças e setores de fronteira tecnológica. Esse processo de abertura levou a um aumento de empresas privadas e uma diminuição de empresas estatais, mas estas últimas, apesar de estarem em menor número, se tornaram maiores e mais produtivas, resultando em um controle ainda maior do que antes.

No campo, a terra é em sua grande maioria pública, funcionando como uma proteção social para os chineses em períodos de crises que afetam o emprego e a renda nas cidades. A possibilidade de pessoas retornarem para terras no campo as protege de amargar o desemprego e passar fome. (FALEIROS, 2023). No meio rural poderão voltar a produzir para o Estado, comercializar o excedente e para sua subsistência.

Em âmbito internacional, apesar de a China ser uma potência econômica e militar, a sua perspectiva socialista faz com que não atue como uma força imperialista nas relações exteriores. No campo financeiro, a China não faz exigências para seus devedores colocarem políticas econômicas que prejudiquem o desenvolvimento interno dos países, como faz o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. A política chinesa se adequa aos orçamentos desses países, frequentemente reescalonando essas dívidas. (JABBOUR, 2021).

Outra característica é o direcionamento de suas ações tendo em vista um mundo multipolar, menos centrado nos objetivos dos EUA. Um exemplo é a atuação chinesa para o fortalecimento dos BRICS, bloco que tem como objetivo fortalecer o comércio e o intercâmbio financeiro entre alguns países do Sul Global, fora do eixo euro-americano.

No espectro das finanças globais, um dos objetivos do gigante asiático é que outras moedas, que não o dólar, possam ganhar espaço nas trocas comerciais, materializando um processo de desdolarização da economia mundial. Além de facilitar trocas comerciais entre regiões do Sul Global, um dos principais objetivos da desdolarização é enfraquecer o acúmulo de reservas em dólares na economia global (FALEIROS, 2023). As reservas em dólares fazem com que o mundo inteiro financie o déficit americano. Vale lembrar que os principais gastos dos EUA são para área militar, o que significa dizer que o mundo inteiro financia as ações militares dos EUA.

No âmbito comercial, a China adota um posicionamento pragmático em suas relações. O país é responsável por 15% das exportações mundiais, ficando no topo do ranking, e por 12,2% das importações, participação menor somente do que a dos EUA. Essa significativa participação no comércio exterior mundial foi conquistada nas últimas décadas. Em 1948, o país era responsável por apenas 0,9% das exportações e 0,6% das importações; em 1983, 1,2% e 1,1%; em 1993, 2,5% e 2,7%; em 2003, 5,9% e 5,4%; até atingir em 2021 as taxas de 15,5% e 12,2% (WTO, 2022).

O crescimento chinês no comércio exterior mundial pode ser explicado pela intencionalidade do país em universalizar sua política externa, que é explicada por questões políticas e econômicas. Na área diplomática, após o fim da Guerra Fria, o país se viu obrigado a se movimentar para evitar o isolamento comercial promovido pelos EUA (PAUTASSO, 2009). No campo econômico se inserem dois fatores: o primeiro é a utilização da política externa como instrumento para alçar o país à potência mundial; o segundo é a necessidade do país em sustentar seu crescimento econômico, o que aumenta sua demanda por insumos e matérias-primas para alimentação e produção.

A busca por produtos de toda ordem fez com que a China entrasse com força no comércio internacional, alterando qualitativa e quantitativamente as características das trocas globais. Os interesses comerciais da China na América Latina e especificamente no Brasil são prioritariamente em relação aos produtos primários, o que influenciou em mudanças no comércio internacional dos países da região.

A economia brasileira, por exemplo, registrou nos 30 últimos anos, encerrados em 2022, um extraordinário crescimento de seu comércio exterior. O montante exportado é quase oito vezes maior que o início dessa série, e o valor das importações é aproximadamente dez vezes o valor inicial. O saldo comercial, por sua vez, é cerca de quatro vezes maior em comparação com 1993, como pode ser visto no Quadro 1, em que destacamos as balanças comerciais de importantes parceiros comerciais brasileiros.

 

Quadro 1 – Balanças comerciais brasileira selecionadas, 1993-2022, em bilhões US$ FOB*

Fonte: Comex Stat – Séries Históricas. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: (*) em valores correntes. (1) América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe. (2)  China soma os valores da China, Hong Kong, Taiwan e Macau.

 

No início da série, em 1993, EUA, América Latina e China correspondiam a 46,9% do destino das exportações brasileiras, atingindo o pico dessa participação em 2018, quando representaram 58,2%. Em 2022, essa representação foi de 53,3% (Quadro 1). Nota-se uma tendência de queda das exportações para EUA e América Latina, além da consolidação da China como o maior destino das exportações brasileiras. A China, em 2009, ultrapassou os Estados Unidos e, em 2013, o conjunto dos países da América Latina em relação ao destino das exportações brasileiras em valores (Gráfico 5). Desde 2009, quando desbancou os EUA, a China se mantém como o principal país receptor dos produtos brasileiros.

 

Gráfico 5 – Evolução da participação das exportações brasileiras, destinos selecionados, 1993-2022 (%)

Fonte: Comex Stat – Séries Históricas. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: (*) em valores correntes. (1) América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe. (2)  China soma os valores da China, Hong Kong, Taiwan e Macau.

 

Além das informações que o quadro nos mostra, vale destacar as alterações em nossa pauta de exportação. O Brasil, desde seu período colonial até o final da década de 1920, tinha como modelo de desenvolvimento de sua economia o agro-exportador, fazendo com que os valores das exportações de produtos primários fossem sempre maiores do que a de outros setores da economia. Somente em 1981, depois de experimentar um profundo processo de industrialização ao longo do século XX, o país começou a exportar mais, em valores, produtos manufaturados, superando a exportação de produtos primários. Situação essa que persistiu até o início do século XXI.

Em 2000, 59% das exportações brasileiras eram constituídas de bens manufaturados. No entanto, em 2005, essa participação tinha se reduzido para 55%, uma tendência que se acelerou fortemente desde então. Em 2014, a indústria de transformação foi responsável por pouco mais de um terço (35,6%) das exportações do Brasil. Por sua vez, a participação dos produtos primários no total das exportações cresceu continuamente desde 2000, passando de 22,8% para 48,7%, em 2014 (Brasil, 2008). (VEIGA e RÍOS, 2018, p. 93).

A retomada da dianteira dos produtos primários nas exportações brasileiras é explicada em parte pelo aumento da demanda da China, que enxergou no Brasil um grande ofertante de matérias-primas, para sua industrialização, e alimentos, para o sustento de sua população.

Se, por um lado, a participação da China aumentou nas exportações brasileiras, a dos EUA e da América Latina diminuiu. Os produtos chineses vêm ganhando mercados, que antes eram abastecidos por produtos brasileiros, como no caso dos EUA e dos países da América Latina e do Caribe.

As alterações nas participações das exportações brasileiras preocupam não só pela perda de espaço para produtos chineses em parceiros comerciais históricos, mas pela própria composição da pauta exportada. Enquanto as exportações para a China se concentram em commodities, como minerais e produtos agrícolas, para a América do Sul o principal foco são os produtos manufaturados. Os EUA também costumavam ser um mercado relevante para os produtos industriais brasileiros, mas as empresas brasileiras têm perdido participação nesse mercado para concorrentes chineses (VEIGA; RIOS, 2008).

A China vem ganhando espaço nas relações comerciais com o Brasil também via importações. Nota-se uma trajetória de queda nas importações provenientes dos EUA e América Latina, e uma expansão do consumo de produtos chineses. No início da série de 1993, 40,5% do que era importado provinha de EUA, América Latina e China. Essa participação foi se expandindo ao longo dos anos, atingindo seu auge em 2022, com 53,4%. Mais uma vez a China se destaca, ultrapassando tanto os EUA como a América Latina em 2012.

 

Gráfico 6 – Evolução da participação das importações brasileiras, por região ou países de origem selecionados, 1993-2022 (%)

Fonte: Comex Stat – Séries Históricas. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: (*) em valores correntes. (1) América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe. (2)  China soma os valores da China, Hong Kong, Taiwan e Macau.

 

Nas últimas décadas, as relações comerciais entre Brasil e China se estreitaram e apresentaram um crescimento significativo. Em 1993, as exportações brasileiras para China correspondiam a pouco mais de 2,9% do total, já as importações de produtos chineses para o Brasil representavam cerca de 1,8% de tudo que o Brasil comprou do exterior. Quase 30 anos depois, em 2022, as exportações para China correspondiam a 27,2% do total exportado naquele ano, e as importações 22,6% (Gráfico 5, Gráfico 6). Cabe destacar que em 2020, por exemplo, 41,7% de tudo do que a China importou da América Latina era de origem brasileira.

Para entender melhor como as trocas são dadas entre Brasil e seus parceiros comerciais, analisamos as pautas exportadora e a importadora brasileira com os dados desagregados. Assim, devido à adequação da nomenclatura brasileira para possibilitar análises comparativas com outros países, os dados apresentados a seguir só estavam disponíveis a partir de 1997 (BRASIL, 2020).

O aumento da participação da China como destino dos produtos brasileiros significou uma reprimarização desse fluxo comercial. Nota-se uma queda na participação da Indústria de Transformação, que chegou a ser de 80,1% em 1997 e passou para 23,6% em 2022, enquanto que os produtos primários, advindos do setor agropecuário e da indústria extrativa, passaram de uma participação de 19,8%, em 1997, para 76,2%, em 2022. (Gráfico 7).

 

Gráfico 7 – Pauta exportadora Brasil-China, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: China soma os valores da China, Hong Kong, Taiwan e Macau. A participação de Outros Produtos na exportação Brasil-China não ultrapassa 0,4% em toda série, por isso não é possível visualizar no gráfico.

 

Ao olharmos para o histórico da pauta exportadora para a América Latina e Caribe, nota-se que, apesar do crescimento de produtos da indústria extrativa e do setor agropecuário – que passou de 1,5% e 2,0% em 1997 para 5,8% e 10,6% em 2022, respectivamente -, a participação da indústria de transformação ainda detém a maior parte da participação da pauta, com 82,7% em 2022. Vale ressaltar que essa participação já chegou a 96,2% em 1997 (Gráfico 8).

 

Gráfico 8 – Pauta exportadora Brasil-América Latina e Caribe, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe.

 

Já o histórico da pauta exportadora para os Estados Unidos, que também apresentou um crescimento de produtos da indústria extrativa – passando de 2,3% em 1997 para 15,0% em 2022 – continua sendo um destino que recebe mais produtos manufaturados, já que a participação da indústria de transformação representou 78,9% em 2022. Vale ressaltar que essa participação já chegou a 95,9% em 2001 – maior participação do período em análise (Gráfico 9).

 

Gráfico 9 – Pauta exportadora Brasil-Estados Unidos, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil.

 

Ao analisarmos a cesta de produtos brasileiros exportados para a China, observa-se que em 1997 os dois principais produtos desse fluxo provinham da indústria de transformação. Passados 25 anos, em 2022, os dois principais produtos que o Brasil exportou para a China foram a soja, do setor agropecuário, e minérios de ferro, da indústria extrativa. Destaca-se que a soja representou 35,1% das vendas brasileiras para o país asiático. Além disso, vale ressaltar que mesmo em 1997, os produtos da Indústria de transformação mais exportados eram ligados à cultura da soja. No caso da América Latina e Caribe, a cesta de produtos exportados é mais diversificada e, apesar da indústria automotiva continuar a ter um peso considerável, observa-se que o segmento perdeu espaço para o petróleo e o milho (produtos primários, dos setores da indústria extrativa e da agropecuária, respectivamente) entre os itens mais exportados para a região. As exportações para os Estados Unidos também são mais diversificadas. Se, por um lado, verifica-se uma perda de espaço de produtos de consumo final, que em 1997 figurava na primeira colocação com a venda de calçados (e em 2022 não aparece mais na lista), por outro, aparece a exportação de aviões, produto com um maior valor agregado. Os produtos mais exportados pelo Brasil para os EUA em 2022 foram do setor primário, mais especificamente da indústria extrativa: óleos de petróleo (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Ranking dos 5 produtos brasileiros mais exportados, por destino selecionado, 1997/2022

Fonte: Comex Stat – Séries Históricas. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: (*) em valores correntes. (1) América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe. (2)  China soma os valores da China, Hong Kong e Macau.

 

No que diz respeito às importações de produtos chineses pelo Brasil, historicamente predominam as compras de produtos da Indústria de Transformação (Gráfico 10). Assim, apesar de a balança comercial sino-brasileira ser superavitária em favor do Brasil (Gráfico 3), a relação que se configura é o Brasil sendo exportador de alimentos e de matérias-primas e importador de produtos industrializados (Gráfico 10)

 

Gráfico 10 – Pauta importadora Brasil-China, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: China soma os valores da China, Hong Kong, Taiwan e Macau.

 

No caso da pauta importadora com origem latino-americana e caribenha, não observamos grandes alterações entre os anos 1997 e 2022. Os produtos agropecuários representaram uma média no período de 11,8%, os da indústria extrativa, 14,3%, e os que provinham da indústria de transformação, 65,4% (Gráfico 11). Também vale destacar a Argentina como maior origem das nossas importações na região.

 

Gráfico 11 – Pauta importadora Brasil-América Latina e Caribe, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe.

 

No que diz respeito à pauta importadora de origem estadunidense, observa-se um declínio de produtos oriundos da indústria de transformação que passaram de uma participação de 94,7%, em 1997, para 83,9%, em 2022, e um aumento dos produtos de origem extrativistas que de 1997 para 2022 saíram de uma participação de 2,5% para 15,5% (Gráfico 12).

 

Gráfico 12 – Pauta importadora Brasil-Estados Unidos, por atividade econômica, 1997-2022, em bilhões US$ FOB

Fonte: Comex Stat. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil.

 

Analisando a cesta de produtos importados, de forma comparada entre 1997 e 2022, destaca-se uma mudança na cesta de produtos importados da China, de produtos mais ligados ao segmento eletroeletrônico para produtos para geração de energia solar. No caso da América Latina e Caribe, observa-se a perda de espaço do petróleo para o gás natural e a manutenção dos demais itens – energia elétrica, produtos da cadeia automotiva e o trigo. A cesta de produtos importados dos Estados Unidos também é alterada, e itens ligados a uma matriz energética fóssil passaram a aparecer em 2022, bem diferente dos itens que apareciam em 1997 (Tabela 2).

 

Tabela 2 – Ranking dos 5 produtos mais importados pelo Brasil, por origem selecionada, 1997/2022

Fonte: Comex Stat – Séries Históricas. Acesso em 22 de março de 2023. Elaboração: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social-Brasil. Obs.: (*) em valores correntes. (1) América Latina e Caribe soma os valores da América do Sul e América Central e Caribe. (2)  China soma os valores da China, Hong Kong e Macau.

 

Olhando tanto a pauta exportadora como importadora a situação se agrava, com o fato de os produtos chineses estarem ganhando espaço em países que historicamente eram compradores de produtos manufaturados brasileiros, como mencionado anteriormente, que é o caso dos EUA e dos países da América Latina, em especial a Argentina, historicamente um dos principais parceiros comerciais brasileiros que, em 2022, foi o terceiro maior destino das nossas exportações e foi a quarta maior origem das nossas importações.

A ascensão das relações comerciais entre China e a América Latina está relacionada pela oferta de commodities por parte dos países latino-americanos e pelo grande crescimento industrial chinês que expandiu seus produtos em termos globais. Os países da América Latina passaram por processos de desindustrialização a partir da década de 1990, o que resultou em uma reprimarização de suas pautas exportadoras.

De certa maneira, é isso que os países latino-americanos têm para oferecer. A conformação de relações comerciais entre dois países é influenciada pela posição estrutural das economias nacionais frente à economia global, mas também pelos projetos internos de cada país.

A China não faz interferência nos projetos de desenvolvimento internos de seus parceiros comerciais. Ela não impõe por sua força econômica e militar que os países latino-americanos, como o Brasil, continuem se especializando em produtos primários para exportação, mas ela busca sempre um bom negócio e acaba encontrando isso nas relações comerciais com o Brasil e com os outros países da região latino-americana.

Vale destacar também que a exportação brasileira de produtos do setor da indústria de transformação para os EUA e para China possui baixo grau de desenvolvimento tecnológico comparado ao nível de desenvolvimento da fronteira tecnológica da indústria das potências econômicas globais. As exportações brasileiras de produtos manufaturados para China e EUA são produtos com pequenas transformações de produtos da indústria extrativa e do setor agropecuário, como óleos brutos de petróleo ou produtos semimanufaturados de ferro.

Portanto, diante da grande ascensão das relações comerciais entre Brasil e China nas últimas décadas, e das características dessas trocas comerciais, é necessário aprofundar a análise dos impactos econômicos, sociais e ambientais da continuidade da produção que é necessária para atender essa relação comercial. Não menos importante, é necessário também investigar as potencialidades para o Brasil, diante de uma relação comercial já solidificada com a China, de se planejar e fazer projetos de desenvolvimento interno, com vistas ao comércio sino-brasileiro, que escapem da mera oferta de produtos primários e compra de manufaturados.

 

Referências

BRASIL. Ministério da Economia. Manual de utilização dos dados estatísticos do comércio exterior brasileiro. Brasília, v1.1 02/04/2020. Disponível em: https://balanca.economia.gov.br/balanca/manual/Manual.pdf . Acesso em: 15 dez. 2023.

FALEIROS, Rogério. Um olhar da China sobre o mundo. Entrevista com o pesquisador Rogério Faleiros. Tricontinental – 20 de setembro de 2023. Disponível em: https://staging.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/um-olhar-da-china-sobre-o-mundo-uma-entrevista-com-o-pesquisador-rogerio-faleiros/ Acesso: 06/11/2023.

JABBOUR, Elias. Existe imperialismo chinês? TV Grabois, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pQcJ_fEki78 Acesso: 01/12/2023.

PAUTASSO, Diego. O comércio exterior na universalização da Política Externa Chinesa no século XXI. Meridiano 47 n. 112, nov. 2009 [p. 18 a 20], 2009.

PINI, André Mendes. A crescente presença chinesa na américa latina: desafios ao Brasil. Boletim de Economia e Política Internacional | BEPI | n. 21 | set./dez. 2015.

VEIGA, Pedro da Motta; RIOS, Sandra Polónia. Economia Política da Política Comercial Brasileira. In NETO, Walter Antonio Desiderá;  [et. al.] Política externa brasileira em debate : dimensões e estratégias de inserção internacional no pós-crise de 2008. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/8793/1/Pol%c3%adtica%20externa%20brasileira%20em%20debate_dimens%c3%b5es%20e%20estrat%c3%a9gias%20de%20inser%c3%a7%c3%a3o.pdf Acesso: 09/12/2023.

WTO – World Trade Organization. World Trade Statistical Review (2022). Published by the World Trade Organization. ISBN 978-92-870-5353-4. 2022.